Se alimente de mim
“Sua garota covarde,
Você deveria doar suas pernas porque você nunca fica de pé
Você devia dar uma festa do caralho
Você devia contratar uma banda
Sentar no meio de uma grande pista de dança e
Cadê toda a atenção que você vem pedindo?”
Ultimamente tenho me sentido bastante melancólica. Tenho saudade, mas estou desamparada e não existe mais esperança. Por isso, não vou ficar, mas eu gostaria que você soubesse que assisti cada movimento seu, que seus gestos estão gravados e reprisam na minha mente. Cada palavra que já me disse está insculpida no meu cérebro. E, por você, eu não sinto nada além de amor.
Você me estudou de outra maneira, dissecando meu corpo. Me abriu no meio e se assustou com o que viu. Incapaz de me defender, assisti você vilipendiar meu cadáver.
Quando decidi te confessar o que sinto, aceitei meu próprio convite perigoso de abandonar a segurança do sentido e mergulhar no que ainda não virou palavra. Mal posso enxergar, mas eu não quero mais me proteger das águas turvas do amanhã. Derrubo as minhas defesas. Eu aceito perder o chão.
Todo esse tempo, eu tinha certeza que estava dançando no ritmo da sua música, que meu corpo se movia conforme você queria. Até que eu tropecei nos meus próprios pés. Idiota. De repente, a música parou e o salão se encheu de silêncio e escuridão. Um vento frio atingiu minha pele, fazendo-a se arrepiar. Minhas certezas se evaporaram. Eu cometi um erro, um crime, uma blasfêmia. Não agi da forma que você queria. Agora devo sofrer. Estou condenada.
Eu sinceramente não acho que deveria ser assim. Eu teria dançado até meu pé sangrar. Teria refeito a coreografia milhares de vezes até ser boa o suficiente. Ao contrário do que dizem, eu acredito que precisamos sim fazer coisas para que sejamos amados, assim como é preciso fazer algo para ser odiado. Se nada foi feito, então algo foi sentido e isso já é o bastante.
Alguns dias te culpo por ter nos destruído por conta própria. Meu cérebro não entende que não posso me arrepender do que você fez comigo. Outros dias a culpa é minha. Eu repasso todas as nossas conversas na minha cabeça e me martirizo quando lembro de quando errei até os menores erros. E se a culpa é da minha mãe? Uma mulher tão incompleta, que a vida toda, procura ela mesma no meu pai, e eu nunca fui o suficiente para completar esse vazio. E se ela passou essa doença pra mim e agora tento desesperadamente responder às suas demandas? E se meu valor consiste em ser consumida por outra pessoa?
Não posso negar a frieza com que você teve ao lidar com nossa relação. Desde o começo do fim você deixou claro que, por você, tudo bem, não tinha nada pra resolver. E eu, confusa, sem entender o que estava acontecendo, sem entender que você já tinha se cansado de mim. Percebi que talvez você nunca tenha se importado quando, enquanto meu corpo se encolhia, soando e tremendo, enquanto meus olhos choravam, você ficou parada com os olhos se enchendo de água. Seu orgulho foi maior. Agora a culpa é sua de novo.
Me disseram que a coisa sensata seria te matar em vida, desaprender os hábitos e esquecer nossa história. Esquecer não é algo que posso simplesmente escolher fazer, e se pudesse, nem ia querer. Não vou negar meus verdadeiros sentimentos, eles me dizem tanto sobre mim.
Eu não deveria ter feito o que eu fiz. Culpa minha. Então, eu vou até o bar, te empurro, te puxo, te xingo, te amo, te cutuco. Você grita. Eu grito. Eu choro. Você assiste. Você me abraça. Eu sei que você não quer sentir o calor do meu corpo. É estranho conversar agora, você pega seu copo cheio de cerveja quente e toma tudo em um gole só. O gelo da minha bebida já derreteu, então eu deixo ela em cima da mesa. Você me leva até meus amigos. É hora de ir embora.


